segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Montagem: considerações e uma proposta classificatória





 

O consagrado e saudoso cineasta americano Stanley Kubrick dizia que “cinema é montagem”. Após a frase tornar-se um mantra meu, a ponto de tê-la usado como epígrafe em outro texto [1],passei a enxergá-la de modo mais crítico, e cheguei à conclusão de que é uma simplificação exagerada definir o cinema em termos tão reducionistas.
A montagem é o elemento que faz o registro filmado nascer como filme, isto é, como enunciação planejada e meticulosamente ordenada em sequências, planos e cenas; numa só palavra, em atos espaço-temporais. Porém, trata-se de uma inverdade que o filme seja meramente sua montagem, embora saibamos que Kubrick teria se expressado em termos um tanto metafóricos. Isto porque o registro precede a montagem, e a condena a uma dinâmica limitada.
Em um primeiro momento, quero deixar claro que a intenção deste texto não foi esgotar, na classificação adiante proposta, todas as espécies de montagem existentes, muito menos dar conta de todas as formas inovadoras que eventualmente venham a ser concebidas. Tentei dividir o elemento de linguagem cinematográfica em questão em 03 (três) grandes grupos, que albergam o que acredito ser a maioria esmagadora dos filmes já feitos e onde recairão muitos dos que ainda serão realizados. Posteriormente, pretendo expandir esta classificação preliminar, seja para incluir tipos negligenciados, seja para dividir as categorias em subcategorias, e assim dar conta do fenômeno em maior amplitude. Em seguida, procurei expor uma visão antiga minha sobre o filme como recorte espaço-temporal da realidade e a consequência disto, qual seja, a subordinação da montagem às noções que denominei mote e rematamento.

1. Proposta classificatória da montagem:

De modo muito geral, ao analisarmos as montagens já concebidas no cinema, há 03 (três) casos mais recorrentes:

1.1. Montagem de sucessão linear simples
Cada sequência se segue à anterior em um encadeamento elementar, no qual fica muito clara a sucessão dos instantes narrativos, e onde ainda, no interior da sequência, os próprios planos colam-se uns aos outros sem autossignificação. É a montagem mais direta possível, construída para obter uma assimilação imediata, não dificultosa, do espectador.
Assumiu uma feição mais radical a partir do movimento dito “minimalista”, que teve como expoente máximo o francês Robert Bresson, em meados do séc. XX, e continua rendendo frutos no cinema mundial.


Abre-se uma ressalva, contudo: para utilizar este tipo de montagem, é preciso ter em mente exatamente qual é o propósito estético, além de um iter, isto é, um caminho para alcançá-lo. Na medida em que o minimalismo seja usado sem essa consciência – e, sobretudo na ausência de um roteiro consistente –, ele pode redundar em um filme sem substância, que tenha a pretensão de falar pelas entrelinhas, mas que, na verdade, não esteja veiculando mensagem alguma. É o caso de "The Loneliest Planet" (2011), segundo filme da russa Julia Loktev ("Day Night Day Night").

1.2. Montagem de sucessão linear complexa
Nesta, as sequências também se sucedem cronologicamente (e igualmente plano a plano, cena a cena), porém é possível que haja elementos perturbadores do encadeamento, como digressões ou paralelismo, sem prejuízo do avanço narrativo rumo a uma significação específica. Esta espécie de montagem é a de ocorrência mais frequente, posto que a maioria dos realizadores prefere fazer um filme dinâmico, com idas e vindas no tempo, como flashbacks, antevisões do futuro narrativo, dois ou mais atos espaço-temporais simultâneos etc, de modo que haja uma montagem autossignificante, ou seja, do tipo que veicula em si mesma um reforço à enunciação geral na construção de uma determinada poética. O film noir norte-americano fez muitas experiências digressivas, o que ilustro por filmes importantes como “Laura” (1944), de Otto Preminger, “The Killers” (1946), de Robert Siodmak e “The Woman in the Window” (1944), de Fritz Lang. Há ainda o inesquecível "Citizen Kane" (1941), de Orson Welles. O paralelismo, por sua vez, aparece de forma mais flagrante em filmes contemporâneos como “Pulp Fiction” (1994), de Quentin Tarantino, e “127 Hours” (2010), de Danny Boyle, para não citar aqueles incontáveis em que o fenômeno se dá pela simples técnica do plano/contraplano (alternando-se) ou de cenas alternadas em campos diferentes, que dão a ideia de dois acontecimentos simultâneos.

 
1.3. Montagem de sucessão não linear:
De ocorrência menos comum, caracteriza-se pelo abandono do rigor cronológico padrão, ou seja, pode-se até objetivar determinado fim, mas a significação é obtida pela combinação entre planos que se interpõem ou sobrepõem no tempo, seja com encavalamentos narrativos (como na montagem clássica do chamado “cinema dos primeiros tempos”), seja com digressões em vaivém que confundem o espectador quanto ao tempo da narrativa, o que pode ser exemplificado por “L'Année Dernière à Marienbad” (1961), de Alain Resnais, ou ainda pela narrativa “de trás para frente”, como em “Irreversible” (2002), de Gaspar Noé. Neste tipo de montagem, qualquer sucessão temporal padrão é acidental.


Vale lembrar que o conceito de sucessão temporal não pode ser meramente o caminhar natural do conteúdo de um registro fílmico (o que acontece em um plano/cena/sequência), mas o meio de se obter significação. Ex: o curta-metragem experimental “O pátio” (1959), primeiro da carreira de Glauber Rocha, filme quase indecifrável, é o registro de determinadas imagens em movimento, como em qualquer filme, mas o diretor não pretendeu chegar a um fim específico e determinado em termos narrativos (no máximo em termos visual-descritivos), o que o situa na classificação da montagem de sucessão não linear. Da mesma forma o americano “Pink Narcissus” (1971), de James Bidgood, cujo bojo narrativo é um conjunto de sonhos e fantasias de um personagem gay em local e tempo indefinidos: o diretor brinca com a imersão do espectador, fazendo-o confundir-se com o que é sonho e o que é realidade, o que é momento presente e o que é passado. Naturalmente, em ambos os casos, o registro abriga em si mesmo uma sucessão temporal, na medida em que o tempo do filmado não é registrado senão em pequenas partículas de sucessão temporal comum, que nada mais é do que a da realidade; a única forma de fugir a esta imposição técnica seria construir uma montagem em que a menor unidade temporal possível se sucedesse a outra igual, e isto ininterruptamente por toda a metragem da película, de modo que teríamos um movimento frenético e quase impossível de absorver em termos de sentido. Portanto, um simples movimento onde um personagem estica a mão para apanhar uma xícara de chá, ainda que rodado em slow ou fast motion, é um transcurso de tempo subordinado ao tempo real em virtude do registro. Logo, se é quase inescapável a ditadura do tempo real, que apassiva o registro narrativo, o conceito de sucessão temporal está ligado ao manejo do tempo real registrado em função da significação tencionada. Por isso, na montagem de sucessão não linear, o que é não linear não é o registro temporal (este, sempre linear), mas o manejo dos significantes.

2. A montagem em função de um mote e um rematamento:
Assim como não se pode escapar à imposição da sucessão temporal do registro, o filme, que não pode ser infinito, precisa observar limites de início e fim, o que, naturalmente, todos sabem. A questão é que não se trata de meramente delimitar qualquer recorte temporal, mas o próprio registro precisa optar por quais limites possam traduzir melhor a intenção do que se pretende narrar.
Um filme, seja qual for sua natureza (narrativa, descritiva, documental etc) e metragem (curta, média ou longa) é sempre o fenômeno onde se projeta, simultaneamente, para o passado e para o futuro, um substrato semântico. Tomando como exemplo o cinema narrativo, sabe-se que, se um filme começa com um personagem em uma atividade qualquer, é porque, para a significação que se pretende, não conviria regredir ainda mais no tempo para uma situação anterior da vida deste mesmo personagem ou de seus antepassados – ou ainda mais distantemente –, muito embora isso possa ser feito ao longo da narrativa na forma de digressão. O caso é que não seria útil nem necessário começar de um ponto anterior àquele; e, em seu desfecho, a mesma lógica será observada: tenderemos a projetar mentalmente um pós-filme, ou seja, o que acreditamos que ocorrerá após o fim do narrado, mas a narração só pôde prosseguir até ali. A opção do momento em que o filme começa e termina é o que, por mais elementar que seja, diferencia muitos filmes em bons e ruins, e mostra onde está realmente a capacidade do roteirista e do diretor de construir uma estória bem contada.
Chamei à opção de começo “mote”, e à opção de fim “rematamento”. Ora, se o registro está submetido à necessidade de estabelecimento de um mote e de um rematamento, a montagem precisará ser erigida nos limites destas opções, e procurar ser apta a produzir uma dentre muitas significações possíveis. Submeter a montagem a mote e rematamento é, outrossim, submetê-la a limites temporais, fenômeno que a torna escrava do registro. Não há montagem totalmente livre, uma vez que ela é construída na fase pós-registral. Eis porque cinema não é montagem, ao contrário do que disse Stanley Kubrick. Mas pode fazer a diferença como elemento de linguagem, fazendo de um só registro muitos e diferentes filmes possíveis.


[1] Ensaio sobre o documentário “Jogo de cena”, de Eduardo Coutinho, que escrevi para o meu outro blog, “Dissecando Cinema”. Disponível em: http://dissecandocinema.blogspot.com.br/2011/06/jogo-de-cena-de-eduardo-coutinho-2007.html