Heidegger sustentava que o
elemento afetivo, e não o lógico, é que faz o “ser-no-mundo” entrar em contato com o “ser-mesmo-do-mundo”.
Nesse contexto, afirmou que o poeta veicula também uma forma de verdade, pois,
ao descrever a realidade segundo seus peculiares métodos e impressões, postula
o conformismo com uma realidade opressora, no compromisso de demonstrar como
afetivamente é por ela vitimado em júbilo ou angústia. À esta atitude passiva,
não transformadora, deu o nome de “gelassenheit”
(serenidade).
Todorov também acreditava na
poesia como forma de compreensão do mundo, pois inseria a arte em geral no
campo dos saberes não puramente lógicos, filosófica ou cientificamente. Para ele,
o acesso ao mundo não dependia de um rigorismo metodológico.
Estes pensadores, porém,
alocaram a poesia como componente unicamente literário. Heidegger porque considerava
o cinema tema afeto tão-somente à indústria do entretenimento; Todorov porque
concentrou suas preocupações nos contornos que a teoria e a pedagogia literária
vinham assumindo.
Com a teoria da razão
logopática no cinema, de Julio Cabrera, que atesta a grandiosidade deste por
congregar filosofia e arte, e com o substrato histórico de como o cinema vem se
manifestando nesse pouco mais de século de existência, já é possível afirmar que
Heidegger errou ao reduzir a obra fílmica ao caráter de simples produto de
consumo, idéia que alienaria a possibilidade de o homem expressar sua relação com
o “ser-mesmo-do-mundo”, e assim uma verdade lógico-afetiva (ou logopática).
Fazendo um balanço das idéias
defendidas pelos 03 filósofos, acresço que o cinema é literatura por
equiparação – não excluída a sua autonomia –, usando apenas um terreno
diferente, o imagético, para propor uma narrativa, seja ela ficcional ou
documental.
Quando a narrativa cinematográfica
é documental, muito se aproxima da filosofia ou da ciência. Quando é ficcional
aproxima-se do romance literário. E quando esta ficção toma ares viscerais,
mormente uma não-linearidade onde misturem-se sentimentos de maneira caótica e
pungente, certamente o cinema é poesia em imagens.
No entanto, em qualquer dos
casos acima apontados o cinema sempre será filosofia para os fins desta, e arte
para fins artísticos. Simultânea e inseparavelmente, pois o ser-no-cinema é ao
mesmo tempo ser-na-filosofia e ser-na-arte. Poder-se-ia chamá-lo de arte
filosófica ou de filosofia artística. Isto porque, segundo Cabrera, “[...] A
filosofia, quando manifesta seu interesse pela busca da verdade, não deveria
apoiar a indagação acerca de si mesma apenas em sua própria tradição, como
marco único de auto-elucidação, mas inserir-se na totalidade da cultura [...]”.

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