segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Post piloto ou inaugural: o cinema como filosofia e arte


Heidegger sustentava que o elemento afetivo, e não o lógico, é que faz o “ser-no-mundo” entrar em contato com o “ser-mesmo-do-mundo”. Nesse contexto, afirmou que o poeta veicula também uma forma de verdade, pois, ao descrever a realidade segundo seus peculiares métodos e impressões, postula o conformismo com uma realidade opressora, no compromisso de demonstrar como afetivamente é por ela vitimado em júbilo ou angústia. À esta atitude passiva, não transformadora, deu o nome de “gelassenheit” (serenidade).

Todorov também acreditava na poesia como forma de compreensão do mundo, pois inseria a arte em geral no campo dos saberes não puramente lógicos, filosófica ou cientificamente. Para ele, o acesso ao mundo não dependia de um rigorismo metodológico.

Estes pensadores, porém, alocaram a poesia como componente unicamente literário. Heidegger porque considerava o cinema tema afeto tão-somente à indústria do entretenimento; Todorov porque concentrou suas preocupações nos contornos que a teoria e a pedagogia literária vinham assumindo.

Com a teoria da razão logopática no cinema, de Julio Cabrera, que atesta a grandiosidade deste por congregar filosofia e arte, e com o substrato histórico de como o cinema vem se manifestando nesse pouco mais de século de existência, já é possível afirmar que Heidegger errou ao reduzir a obra fílmica ao caráter de simples produto de consumo, idéia que alienaria a possibilidade de o homem expressar sua relação com o “ser-mesmo-do-mundo”, e assim uma verdade lógico-afetiva (ou logopática).

Fazendo um balanço das idéias defendidas pelos 03 filósofos, acresço que o cinema é literatura por equiparação – não excluída a sua autonomia –, usando apenas um terreno diferente, o imagético, para propor uma narrativa, seja ela ficcional ou documental.

Quando a narrativa cinematográfica é documental, muito se aproxima da filosofia ou da ciência. Quando é ficcional aproxima-se do romance literário. E quando esta ficção toma ares viscerais, mormente uma não-linearidade onde misturem-se sentimentos de maneira caótica e pungente, certamente o cinema é poesia em imagens.

No entanto, em qualquer dos casos acima apontados o cinema sempre será filosofia para os fins desta, e arte para fins artísticos. Simultânea e inseparavelmente, pois o ser-no-cinema é ao mesmo tempo ser-na-filosofia e ser-na-arte. Poder-se-ia chamá-lo de arte filosófica ou de filosofia artística. Isto porque, segundo Cabrera, “[...] A filosofia, quando manifesta seu interesse pela busca da verdade, não deveria apoiar a indagação acerca de si mesma apenas em sua própria tradição, como marco único de auto-elucidação, mas inserir-se na totalidade da cultura [...]”.

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