segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um panorama do horror no cinema americano dos anos 20 a 50: breve abordagem *

Nota Introdutória: Adverte-se aqui ao leitor que discorrer-se-á sobre a importância historiográfica dos filmes de horror, com enfoque aos estadunidenses produzidos nos estúdios da Universal entre 1920 e 1950, ressaltando-lhes a importância no contexto cinematográfico genérico, isto é, atemporal e universal. **
Obs: Como a plataforma blogspot impede a inserção de notas de rodapé, optei pelos astericos, sendo que o número deles corresponde ao número da nota. Ao fim do texto estará cada nota, precedida do número de astericos como colocados nos locais onde os rodapés ficariam. Peço ao leitor que as leia, pois nelas estão contidas curiosidades e complementos importantes a dados fornecidos no texto.



Em 09 de junho de 1912, da fusão da empresa Independent Motion Picture Company (IMP) – de Carl Laemmle –, com a Powers Picture Company, a Champion Films e a American Éclair, nasceu a Universal Studios, também conhecida como Universal Pictures. A idéia inicial era investir na diversidade de gêneros; e, não obstante haja investido em dramas, ações, westerns etc., foi com o horror que ganhou notoriedade e garantiu sua base de faturamento naquele que ficou conhecido como “primeiro ciclo da Universal”. O gênero tornou-se tão marcante nesta época que hoje fala-se em uma “Hollywood gótica”. ***
O estúdio, contudo, não foi criado com a intenção de só rodar filmes de horror. Era uma tendência da época. ****
Carl Laemmle, grande fã de filmes de horror e da literatura gótica de maneira geral, aproveitou a maré européia e passou a investir na exploração desta temática em seu estúdio.
Num primeiro momento, são destacáveis filmes como "O Corcunda de Notre Dame" (1923), de Wallace Worsley (baseado na obra "Notre Dame de Paris", de Victor Hugo), "O fantasma da Ópera (1925), de Rupert Julian, "Figuras em cera" (1924) e "O gato e o canário" (1927), estes últimos de Paul Leni. Os dois primeiros contam com a majestosa interpretação de Lon Chaney. *****
Paul Leni foi um dos cineastas mais importantes da Universal Studios nos anos 20, mas o público nunca outorgou-lhe o crédito que merecia. Em “O gato e o canário”, estão presentes elementos que vieram a ser adotados amuíde posteriormente no gênero, tais como corredores escuros, cortinas esvoaçantes, casa velha etc. A impregnação destes e outros elementos se tornou muito forte ao longo dos anos. Hoje, se perguntado a uma criança que idéia ela faz de um filme que se pretenda “de terror”, ela verbalizará e fará gestos indicativos destes cenários, e dos monstros clássicos desta época de ouro, embora não a tenha vivido; é que filmes posteriores – e também muitos desenhos –, abordaram o tema desta forma, e muito parodiaram do horror expressionista alemão ou da Hollywood gótica.
Somente na década seguinte, porém, é que tornar-se-ia famoso (embora já houvesse feito filmes antes) um cineasta genuinamente americano marcante para a História do cinema de horror mundial. Tod Browning assinou a direção de clássicos como “Drácula” (1931), com Bela Lugosi no papel principal, “Freaks” (1932), e “A marca do vampiro” (1935), também com Bela Lugosi, mas não como protagonista. Lugosi foi lançado ao estrelato por Browning, que queria Lon Chaney no papel de Dracula, o que não foi possível, pois este contraíra câncer em 1928. E acabou ficando para a posteridade como o Drácula melhor interpretado de todos os tempos.****** É o principal filme de Browning, sem dúvida, e trata-se de uma adaptação do livro homônimo escrito por Bram Stoker em 1897. “Nosferatu”, de F. W. Murnau, realizado 09 anos antes, já procurava fazer esta adaptação, mas não pôde utilizar o nome “Dracula” por não haver Murnau obtido autorização de herdeiros de Stoker para tal. Tendo Browning obtido a permissão, intitulou-o “Dracula”, mas o filme foi quase um remake de “Nosferatu”: não só por adaptarem para as telas uma mesma obra literária, mas também por Browning haver sido um grande fã de Murnau.
O filme foi muito bem recebido pelo público e pela crítica. Tanto é que, no mesmo ano, foi feito outro, mas em castelhano, com direção de George Melford, e Carlos Villarias no papel principal. Por alguns críticos, esta versão pode ser considerada, do ponto de vista técnico, melhor que a original, por vários fatores, os quais não serão aqui enumerados. É consenso, entretanto, que tanto esta versão quanto a em inglês inspiraram-se no “Nosferatu” de Murnau. 
Concomitantemente, surgiu James Whale com seu Frankenstein (1931) *******, que contava com Boris Karloff na pele do monstro, e baseado no livro de mesmo título escrito por Mary Shelley antes da metade do Séc. XIX. Karloff, que provou também ser excelente ator, estrelou no ano seguinte “A múmia”, de Karl Freund. Whale então mais uma vez o convidou, desta vez para o filme “A casa sinistra” (1932), onde veio a contracenar com Gloria Stuart.



De importante menção também os filmes “Os assassinatos da rua morgue” (1932), de Jeannot Szwarc, “King Kong” (1933), de Merian Cooper (em que foram utilizados os melhores recursos tecnológicos disponíveis até então), e “O gato preto” (1934), de Edgar Ulmer (cujos cenários foram compostos com a arquitetura Bauhaus, tendência da época, e onde temos a chance de ver Boris Karloff e Bela Lugosi juntos).
Paralelamente, vale citar, o então emergente estúdio Paramount Pictures, vendo que o negócio gerava lucros, produziu “O médico e o monstro” (de Rouben Mamoulian), sua primeira contribuição para o gênero, em 1931. Trata-se de uma adaptação da obra literária “The strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, de Robert Louis Stevenson. 
Em 1936, o lançamento de “A filha de Drácula”, de Lambert Hillyer, marcou o fim da era Laemmle à frente da Universal. Os investimentos da Universal Studios haviam gerado bons lucros num primeiro momento, porém posteriormente passaram a ser puramente dispendiosos, notadamente após a ingerência de Carl Laemmle Jr. – seu filho – nos negócios. As dificuldades obrigaram pai e filho a deixarem a empresa. Lammle (pai) faleceria 03 anos depois, vitimado por problemas cardíacos.
Àquele tempo, a atmosfera mundial não era das melhores. As movimentações econômicas, políticas, científicas e, principalmente, da indústria bélica, eram muito fortes. Liderada por Adolf Hitler, a Alemanha nazista agora se restabelecera do duro golpe que sofrera na primeira grande Guerra; fortalecida, e com um sentimento nacionalista fortíssimo, invadiu a Polônia, iniciando assim o conflito armado que marcaria a História da humanidade como a mais abrangente catástrofe a acometer o solo terrestre: a 2ª Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945.
Em 1938 – portanto, um ano antes do conflito mundial eclodir –, Abel Gance, cineasta francês, realizou novamente o filme "J'accuse" ******** (na tradução para o português, "Eu acuso"). Tratava-se de uma nova adaptação da obra de Zola, já feita antes pelo diretor em 1919. A mudança mais evidente da adaptação foi a transformação em filme falado, adicionando-se o elemento linguístico da palavras oralizadas pelos atores, o que em muito modificou a forma de contar a história, sem, contudo, deixar que a nova obtivesse valor diminuto em relação à antiga. 
Compreende-se que este filme, assim como foram capazes os expressionistas alemães pré-1ª Guerra, foi capaz de traduzir o clima de tensão pelo qual o mundo passava, e prenunciar certos aspectos que seriam vivenciados pelo homem durante os anos de altercação militar que se seguiriam. O mais importante, porém, foi o resgate feito de algo já explorado na película de 1919: o enfrentamento do problema dos sobreviventes da 1ª Guerra Mundial. Era difícil para todos, e continua sendo, encarar imagens de sobreviventes tão deformados que expunham aparência aterrorizante; junte-se a isso a perspectiva, que a todo o planeta contagiava, de ver estas imagens aterradoras novamente, mormente se o sobrevivente desfigurado que retornava era um parente ou amigo.
Nesta época, frutificaram diversos filmes de guerra, muitos com teor anti-bélico. Havia muitos outros também que, embora não abordassem a guerra em si como assunto precípuo no roteiro, colocavam-a como “background” para uma história de amor, drama, comédia etc. Corporificara-se o segundo ciclo da Universal Pictures, que seguiu investindo em filmes de horror, mas já não via nisto algo tão rentável, ou não identificava no público um retorno tão forte de interesse no gênero, o que acabou por tornar as produções mais difusas, embora ainda de qualidade.
No pós-2ª Guerra, mais especificamente na década de 60, foi quando, na Inglaterra, emergiu a Hammer Film Productions, companhia que tornou-se famosa pelos filmes de horror feitos de meados dos anos 50 até fins dos anos 70, dos quais se destaca Dracula (vários “Draculas”, interpretados por Christopher Lee, tendo como coadjuvante Peter Cushing no papel de Van Helsing), Frankenstein, A Múmia, O Cão dos Baskervilles e O Fantasma da Ópera. Como se vê, foi um cinema de retomada das produções da Universal Studios; uma homenagem àquelas obras fabulosas do 1º ciclo.



Porém, por que uma Companhia é criada e sobrevive da aposta em remake de clássicos? Por medo de que obras venerandas caiam no ostracismo? Talvez. O caso é que, não obstante o mérito da Hammer Film Productions, principalmente pela intenção, os clássicos de horror da Universal Pictures jamais seriam esquecidos. Prova disso é o senso comum do público mundial quanto à atitude dos monstros, seu aspecto e a forma pela qual podem ser mortos, provenientes de memórias culturais dos clássicos da Universal, as quais transcendem gerações. E o substrato dessas memórias é a perenidade dos nossos amados personagens.

NOTAS:

* Este texto é inspirado no documentário “Terror Universal”, de Kevin Brownlow (1998). Merece destaque a escolha do título “terror universal” – aliás, traduzido fielmente do original –, proposital e poeticamente ambíguo, pois além de designar os filmes de terror produzidos pelos estúdios Universal, enaltece o caráter universal destas películas, influentes em muitos lugares de todo o mundo e até os dias atuais.

** Contexto cinematográfico específico é o que diz respeito a local e período específicos.

*** Termo cunhado pelo historiador de cinema David J. Skal.

**** A 1ª Guerra Mundial acabara pouco tempo antes, deixando rastros de destruição, humilhação, assim como sentimentos de luto, angústia e desesperança. Esse estado de espírito social, por assim dizer, juntou-se à arte moderna que se via principalmente nas pinturas (expressionistas, dadaístas, surrealistas etc.), vindo a culminar no expressionismo cinematográfico alemão, que durou de 1919 até fins da década de 20.
Este movimento tinha como característica precípua a negação da racionalidade e do Iluminismo, antagonizados pela exploração do subjetivismo, da emoção e da idéia de inconsciente (trazida por Freud), em continuação ao que fora proposto pelo Fovismo francês de Henri Matisse, que pregava a libertação da cor e das formas. Priorizava-se a busca pela verdade individual, a verdade do “eu”, sendo o critério cognoscível aceito como conducente à definição do “real”; influência de Charles Baudelaire, Friedrich Nietzsche, August Strindberg e outros.
A Alemanha vivia um período de profícua produção artística e científica. Fala-se, inclusive, em um Expressionismo pré-Guerra e um Expressionismo pós-Guerra. No Império de Weimar, que durou até 1918 (fim da 1ª Grande Guerra), existiu a 1ª Geração Expressionista, que estava ligada à novidade desta forma de expressão nas artes em geral, e procurava criar novas obras, mas não ainda no Cinema. Com o fim da Guerra, e o saldo de derrota, destruição e humilhação obtido pela nação alemã, foi instaurada em 1919 a República, sob o sistema de governo parlamentarista – a chamada “República de Weimar”. Neste mesmo ano, surgiu a 2ª geração expressionista, agora mais nacionalista e engajada politicamente, e que transpôs para o Cinema os ideiais expressionistas, deixando transparecer a atmosfera de pessimismo, desilusão e impotência que pairava sobre a pátria. O 1º grande filme expressionista foi “O gabinete do Dr. Caligari”, realizado em 1920 por Robert Wiene. Percebe-se nesta película a preocupação que marcaria as produções cinematográficas posteriores: reminiscências da “dor do mundo”, sentimento que permeou o movimento pré-romântico “tempestade e ímpeto” (do final do Séc. XVIII), encabeçado por Johann Wolfgang Von Goethe.
O Expressionismo opunha-se ao Impressionismo, na medida em que este tentava mostrar, através da luz e do movimento, que pretendiam revelar o real, identificado com o palpável e apreensível pela visão, enquanto que aquele preferia invocar o que transcendia ao táctil e visível, ou seja, o implícito, o oculto, ou mesmo o desconhecido, e por isso a penumbra e o extático.

***** Sobre o “homem das mil faces”, como era conhecido Lon Chaney, recomenda-se o filme “O homem das mil faces” (1957), de Joseph Pevney, uma biografia do astro.

****** Comentava-se que Lugosi era, verdadeiramente, o Conde Drácula, tão convincente era a sua atuação dentro e fora da telona.

******* Antes deste, dirigiu “A Ponte de Waterloo”, no mesmo ano.

******** O filme inspirou-se no livro homônimo do escritor francês Émile Zola, que continha acusações diretas contra o Conselho de Guerra da França pela condenação do inocente Alfred Dreyfus, num processo judicial tramitado em segredo, onde acreditava-se terem sido produzidas provas falsas, de modo a incriminar o oficial por traição.